terça-feira, 15 de junho de 2010

Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante...."


Com essa frase de abertura e a imponente música composta por um dos mais ilustres compositores de trilhas sonoras de Hollywood, John Williams, começava no final da década de 70 a trilogia mais famosa da história do cinema. Hoje, Star Wars é um dos maiores fenômenos da cultura pop, seja por suas frases, seus personagens e suas características que são sempre lembradas e relembradas, no cinema, na música ou na televisão.
A trilogia original foi em princípio planejada por George Lucas para ser um único filme. Após diversas alterações, ele percebeu que seria impossível contar sua história em apenas duas horas. O autor pretendia ainda abrir o filme com uma frase marcante, que seria “Em tempos de grande desespero, virá um salvador e ele será conhecido como o Filho do Sol”. Não satisfeito com o resultado, nasceu a famosa frase que abre todos os filmes da franquia. Pronto, George Lucas anunciava ao seu público que tudo se passava em uma galáxia distante e com isso, não haveria mais limites para a fantasia.
Harrison Ford, que esteve presente recentemente em um evento que comemorava os 30 anos de “Império Contra-Ataca”, considerado por muitos fãs como o melhor filme da saga, afirmou que o fascínio pela saga pode ser explicado pela grande história criada por Lucas, pela música de John Williams e mais algum elemento etéreo que ele não consegue explicar qual é.
Star Wars, a trilogia original, é exatamente o que o ator declarou. Uma grande história com uma grande trilha sonora. Ford só não poderia, em poucas palavras, descrever qual o outro elemento que fez desta obra o maior clássico da ficção do cinema.

George Lucas uniu, em uma única obra, elementos simples que sempre conquistaram a atenção do público.
Temos um herói órfão em uma jornada. Aqui, George Lucas usou um elemento da narrativa de ficção abusado até hoje por seus seguidores : heróis, em sua maioria, são órfãos, pois isso permite os autores trabalharem melhor com suas personalidades e também dá liberdade ao criador de jogar seu personagem em uma aventura sem precisar dar muita explicação ao telespectador ainda preso no mundo real.
Há também um universo distante e fantasioso, que com exceção da existência de seres humanos, nada tem a ver com o nosso, onde tudo é possível enquanto o autor quiser, precisando apenas explicar ao seu público o que é cada elemento que incluiu na trama para que seu mundo tenha sentido e não seja apenas uma mistura bizarra de fantasias. A criação de um universo, no entanto, é um tiro no escuro, pois será o público que sentirá se ele tem carisma para prendê-lo por algumas horas ou não. Felizmente, George Lucas soube por carisma em seus personagens e cativar o público com eles.
Porém, existe um elemento crucial nessa criação que faz com que uma obra tenha alcançado a admiração de tantos fãs até nos dias atuais, algo que não exige poder financeiro nem toda a tecnologia disponível hoje para se criar uma obra de ficção: a transferência de valores do mundo real para o distante mundo da ficção. Os paralelos que são traçados entre os dois mundos sempre foi o elemento chave para que qualquer obra de ficção, seja na literatura, televisão ou cinema, conquiste o coração das pessoas.

Em Star Wars, Luke Skywalker representa o jovem inexperiente, presente em muitas pessoas, enquanto a sabedoria e a experiência são representados pelos mestres Jedi, Obi-Wan Kenobi e o icônico Yoda.
Darth Sidious, o vilão por trás de tudo, é a consciência ruim em cada um, que convida a viver uma vida fácil, sucumbindo aos sentimentos negativos que um ser humano possa ter e deixá-los serem os ditadores de nossas vidas. Então temos Darth Vader, o vilão principal da trama, que é a personificação de tudo isso. Alguém que teve a chance de ouvir a voz da sabedoria mas optou por uma vida dando atenção ao lado ruim da mente, sem medir consequências, alcançando então poder e glória sem limites mas que no final não foi o suficiente para preencher a si mesmo com o que realmente importava na vida, bem parecido com o que acontece na realidade.
Para complementar sua história, o diretor buscou inspiração na história da humanidade para constituir seu universo traçando mais paralelos. Criou a classe dos Jedi, inspirada nas mais famosas classes de guerreiros da história da humanidade, em particular os samurais japoneses. Passeou pelas histórias bíblicas para criar seus personagens principais como Luke e Vader, e ainda tenta incluir questões políticas em sua criação, que embora fique em segundo plano e é ignorada pelo telespectador casual, ajudou a dar força na obra. Naturalmente, alguns detalhes que fazem a diferença e só podem sair da mente de alguém que domina a produção no cinema dão um charme a mais ao conjunto, como a respiração ofegante de Darth Vader, a espada flamejante usava nos combates, o sabre de luz, e todo os efeitos sonoros que ajudam a completar o obra de Lucas.

Felizmente, o diretor percebeu a tempo que seria impossível contar sua história em um filme de duas horas, e os dividiu em uma trilogia, um dos recursos mais comuns de se contar uma história de ficção, pois a divide no básico “começo, meio e fim”.
A saga não foge disso e começa com o simples, porém marcante, Star Wars, de 1977, traduzido como Guerra nas Estrelas no Brasil e depois renomeado de Star Wars Episódio IV : Uma Nova Esperança a partir de 2000, quando o filme Episódio I : A Ameaça Fantasma foi lançado no cinema contando a história que antecede sua obra máxima. O primeiro filme cumpre seu papel, inicia a história e apresenta os personagens. Se for analisado isoladamente, provavelmente não teria conquistado a legião de fãs que tem hoje se não ganhasse continuidade.



O Império Contra-Ataca vem exatamente com esse intuito, é o meio, apresenta enfim a trama principal contando o drama dos personagens e deixando o telespectador a espera do desfecho. Não por acaso é o filme mais aclamado pela crítica e pelos fãs. O Retorno de Jedi então fecha o ciclo com chave de ouro tendo um final previsível mas forte o suficiente para não decepcionar o público.
Star Wars, a trilogia original, foi a base de muito do que se vê na ficção hoje no cinema, com uma narrativa simples deixando os elementos que constituem os filmes marcarem seu público, e se tornou um clássico obrigatório para qualquer fã do cinema e fãs da boa ficção. Se você é uma dessas pessoas, não deixe os efeitos especiais ultrapassados (ainda que foram reeditados nas versões de DVD) o intimidarem. Mais do que qualquer show de luzes, a trilogia tem a oferecer todos os elementos necessários para eternizar um clássico.




As fugitivas

Elas eram consideradas inspiração numa época em que “mulher não tocava guitarra e não cantava rock”. Elas quebraram tabus e se mostraram sem medo. Elas eram as Runaways, uma banda americana pré-punk dos anos 70. Joan Jett, Lita Ford, Sandy West, Cherie Currie e Micki Steele eram as integrantes originais de um projeto que, depois de algum sucesso, fracassou. O empresário Kim Fowley foi o responsável por reunir o grupo.
Como consequência da fama repentina, vieram festas incontroláveis, drogas – muitas drogas – e bebida. Eram todas jovens, inconsequentes e só queriam aproveitar. A vocalista Cherie Currie, interpretada por Dakota Fanning, viu suas companheiras de banda se voltarem contra ela, depois de uma revista publicar fotos só dela.
O público começou a ver a banda como sendo apenas de Cherie e uma matéria que chamava as outras meninas de “as seguidoras” da vocalista foi a gota que faltava para tudo dar errado. Em uma acesso de raiva, Cherie decidiu que não terminaria de gravar uma música em estúdio, onde todas estavam reunidas. Lita Ford partiu então para cima dela, causando a maior confusão. Joan, interpretada por Kristen Stewart, tentou acalmar os ânimos, mas sem sucesso. Era o fim das Runaways.

A conclusão que eu cheguei é que esse jamais será o tipo de filme para se ver com os pais. Não vou ficar espantada se a censura for 18 anos. Comparando a personagem Joan Jett com Bella Swan (da saga Crepúsculo) – ambas interpretadas pela Kristen – podemos dizer que elas são o extremo oposto, uma da outra. Enquanto Bella é 8, Joan é 80!
O filme, dirigido por Floria Sigismondi, ficou legal, apesar de não ter muito o que inventar. Era a história e ponto. Em compensação, algumas cenas, como as de Dakota Fanning se drogando explicitamente, e ela e Kristen Stewart cheirando cocaína no banheiro de um avião, podem elevar a classificação etária e proibir muitas fãs de Crepúsculo de ver sua musa no cinema. Vão ter que esperar em DVD e assistir sem a mamãe e o papai.



O legal do filme foi ver como o sucesso pode enlouquecer as pessoas e como as cobranças que as grandes estrelas, em especial da música, sofrem podem levar meninas educadas como Cherie Currie a se drogar e encher a cara antes dos shows. Tudo isso por pura diversão, ou para aguentar aquela maratona interminável de entrevistas e apresentações sem sentir sono, cansaço e sem ser um simples mortal.

“Fraude ou fenômeno da humanidade?”

Antes de ler a crítica, um aviso: Se você espera ter questões como a existência de espíritos ou vida após a morte respondidas neste filme, abandone aqui a ideia. O filme sobre o qual vou falar agora é uma obra de imenso respeito, que retrata (ainda que de forma abreviada) a vida do médium, cristão e espírita mais conhecido no País e no mundo: Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier.

No início da década de 70, um programa entrou para a história da TV brasileira. O chamado Pinga Fogo, da extinta TV Tupi, tinha um formato inédito para a época, sendo transmitido ao vivo e com 60 minutos de duração.

Na exibição do dia 28 de julho de 1971, um convidado especial trouxe a necessidade de um programa um pouco mais longo. Exibido por três horas, o Pinga Fogo foi o responsável por mostrar, em rede nacional, o carisma e a simplicidade de Francisco Cândido Xavier. Assim começa a viagem de Chico Xavier - O Filme, dirigida por Daniel Filho – diretor consagrado da Globo Filmes com Se Eu Fosse Você 1 e 2.

Rodeada de flashbacks e baseada no livro As Vidas de Chico Xavier, do jornalista Marcel Souto Maior, a história se utiliza de trechos reconstituídos do Pinga Fogo. Em um efeito de transições entre fases da vida do médium, o longa começa com sua infância sofrida, terminando nos anos 70, quando já se transformara no homem que dedicou maior parte de sua vida a ajudar o próximo e a se comunicar com os mortos.



Mas, com certeza não é só a iluminação maravilhosa de Daniel Filho – junto a todos os aspectos como edição de áudio e fotografia – que são espantosamente superiores a qualquer outra produção brasileira dos últimos anos. A maior estrela desse filme é com certeza o roteiro de Marcos Bernstein (Zuzu Angel, Central do Brasil, etc), que joga toda a polêmica e imparcialidade para segundo plano e romantiza o que foi escrito por Maior em uma história emocionante e divertida. Essa é a ideia que o roteiro tenta passar...e passa bem. A trilha sonora, de Egberto Gismonti, também encaixa emoções e tons corretos para cada parte do filme.

A segunda maior estrela do longa é um dos melhores elencos já montados na história da cinematografia brasileira. De início somos apresentados a interpretações perfeitas de Letícia Sabatella e Giulia Gam, totais opostos. Elas atuaram juntas ao prodígio Matheus Costa, que interpreta Chico ainda criança. A propósito, falando sobre o protagonista, na caracterização não há defeitos. Interpretado por mais dois atores, Ângelo Antônio (Dois filhos de Francisco) na juventude e Nelson Xavier na maturidade, Chico é totalmente presente em Nelson, que se aproxima muito do original. A semelhança física do ator com o médium já impressionava a todos quando Chico ainda era vivo, fato que fazia dele o único e ideal candidato ao papel do “instrumento de Emmanuel”.

Aliás, segundo Daniel Filho, o personagem mais polêmico e, consequentemente, mais difícil de ser retratado, foi Emmanuel (interpretado por André Dias), o guia espiritual que apenas Chico conseguia ver. E as melhores passagens do médium no longa são os diálogos engraçados entre ele e seu guia, incluindo uma passagem dentro de um avião. A quase anedota, contada durante o programa Pinga Fogo, você confere na íntegra, no vídeo abaixo.


Ainda no quesito interpretações/elenco, Tony Ramos e Christiane Torloni, que protagonizam a única história paralela à do médium, estão excelentes em cena. Nesse outro núcleo do filme, que serve para aproximar os céticos, o roteiro de Bernstein insere um casal que perdeu o filho assassinado, vê a mediunidade com receio, mas reconhece a psicografia de Chico. É o detalhe que falta para que todos os públicos em potencial estejam dentro do filme.

Em resumo, Daniel Filho pegou um dos aspectos da existência do líder espírita, transformou na essência do filme e acrescentou elementos para não deixar o público observar Francisco Cândido Xavier à distância. Bom roteiro, boa fotografia, boa trilha e ótimos atores. Não só vale o ingresso, como vale o replay.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Humor negro e embaralhado

Willian Fernandes

Imagina-se uma trilha de filme de terror como algo assustador, com discrepâncias entre notas graves e agudas, repleto de oscilações de volume que matam qualquer cardíaco de susto. Já temas para romances são tocados com pianos agradáveis, que acompanham belas vozes de artistas pop.

Esses são exemplos de como campos harmônicos provocam reações diferenciadas ao ouvinte, conforme dizem os estudiosos da música. A teoria diz que o cinema é obrigado a apresentar-se com convergência de emoções entre imagem e som. O diretor Quentin Tarantino, entretanto, prova que esta padronização pode ser quebrada. E ele foi ousado o suficiente para revelar-se inovador, e excessivamente sarcástico, logo em seu primeiro filme – Cães de Aluguel.

Há quem diga que as cenas de violência, editadas com músicas country, dão o tom caracterizam a obra de Tarantino neste filme. Concordo plenamente. Uma cena que retrata bem isso é quando o criminoso Mr. Blonde, interpretado pelo ator Michael Madsen, corta a orelha do policial Marvin Nash, interpretado por Kirk Baltz, em uma tortura que arranca risadas e calafrios do espectador. Lembre-se também que o filme começa com um bate-papo entre gângsteres que curtem o sucesso de Madonna nos anos 80, Like a Virgin. Normal para o cotidiano, raro para filmes de ação.

São situações assim que torna Cães de Aluguel um grande filme. A trama é desenvolvida rapidamente e relatada com normalidade. A interdependência entre os picos de ação e as cenas habituais dá a sensação de que a angústia vivida pelos bandidos é real. Aliás, mostrar que situações do dia-a-dia podem, de repente, se transformar no clímax é um dos pontos fortes do autor.

Cães de Aluguel não é um filme longo. A produção prende o espectador durante 99 minutos, mas de uma forma não habitual, já que a trama é desenvolvida por capítulos. O grande lance é que essas partes não seguem ordem cronológica. É como se o diretor colocasse o meio no começo e o início no fim. Tarantino faz isso, e o mais surpreendente, é que ele consegue bolar um final surpreendente.

Quem espera assistir a um tema policial que remete a reflexões sobre violência urbana se decepcionará com Cães de Aluguel. O filme é indicado para aficionados por diversão, humor negro e temáticas sobre o submundo.



Trailer de Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, em inglês)

Um clássico para assistir a dois


Mesmo na era dos avanços tecnológicos , algo que luta para não sair de moda é o romantismo. É possível ver, mesmo com grande dificuldade, cavalheirismo e expressões “suspirantes” de afeto e carinho entre homens e mulheres.


Lembrando de momentos que fazem o coração das meninas palpitar e a perna dos homens tremerem, o filme ideal para o dia dos namorados é sem sombra de dúvidas “Orgulho e Preconceito”. Além de ser uma história ambientada no século XIX, a trama relata a vida de duas pessoas que sobrepujaram as diferenças sociais em nome de uma linda história de amor. A determinada, teimosa, porém amorosa Elizabeth Bennet (Keira Knightley, de "Piratas dos Caribe"), mantém uma relação de ódio e amor com Mr. Darcy (Matthew MacFadyen, de "Enigma"), cavalheiro rico, porém muito arrogante, que chega a sua cidade. Ela uma moça pobre, pertencente a uma família de cinco irmãs solteiras que buscam o casamento perfeito. Ele um jovem orgulhoso e herdeiro de uma fortuna inigualável faz parte de uma família conservadora e preconceituosa. Um encontro casual dos dois mundos opostos, que marca o início do romance mais elogiado pela crítica nos últimos anos.

É impossível destacar pontos negativos. O filme simplesmente é agradável aos olhos, ouvidos e coração. E não poderia ser diferente; com mais de milhões de exemplares no mundo inteiro a obra literária da escritora britânica Jane Austin, arrebatou o coração uma legião de fãs e críticos, desde 1813, época em que o livro, que deu origem ao filme, foi publicado. O sucesso foi tamanho que o livro Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito) não demorou para ser adaptado às telas de cinema.

O amor impossível, a valorização dos status/poder e o valor da família são pontos acentuados no filme. Uma excelente produção e as interpretações são tão marcantes, que fica quase impossível depois de assistir não se espelhar na corajosa Elizabeth e se apaixonar pelo sensível Mr. Darcy. Para muitos telespectadores este é um romance tão marcante e bonito, que chega a ser inspirador. Para as mais sonhadoras, que idealizam o desejado e não distante “príncipe encantado” vale a pena ter esse filme na prateleira. Garanto que o pó não vai chegar nem perto dessa fantástica produção, afinal, será impossível assisti-lo somente 10 vezes.

Aliás, o filme faz uma crítica a sociedade contemporânea, assunto discutido por muitos sociólogos, a valorização do ter sobre o ser. Isso fica muito explícito com as dificuldades enfrentadas pelos protagonistas para viver esse amor visto como impossível, por causa das lacunas sociais que os dividem.

Orgulho e Preconceito não tem cenas picantes, nem termos xulos, sendo um filme inesquecível. Indicado ao Oscar, conta com um elenco impecável, uma direção de arte admirável e uma trilha sonora marcante. Esse, com certeza, proporcionará aos corações apaixonados um momento único.



Postado por Ingrid Rolemberg

terça-feira, 1 de junho de 2010

A fé de Eli no mundo pós-apocalipse

Marcela Souza

Mais uma história apocalíptica? Não. O Livro de Eli vai além das histórias que tematizam a vida após o tão temido fim do mundo.


No que diz a respeito a como serão os dias na Terra pós-apocalipse, ele se parece com todos os outros, realmente: cidades devastadas e destruídas, ruínas, caos, pouquíssimas pessoas ainda vivas, violência e vandalismo liberados, etc. Tudo o que já vimos, lemos, ouvimos e assistimos sobre o assunto.

Um ponto interessante que, raramente, se vê em outros filmes é a questão da água. Nesse longa, essa fonte de vida imprescindível a todos os seres vivos é mostrada como seria se o mundo acabasse: escassa, preciosa, rara, capaz de causar grandes guerras entre quem a possui e quem a quer possuir.

Tirando isso, o filme tem um enredo diferente. Como o próprio nome diz, O Livro de Eli tem um protagonista importante, além de Eli, sua acompanhante Solara e o tirano Carnegie: um livro. Durante todo o decorrer da história, o nome do livro não é citado, mas o telespectador sabe de qual obra se trata: a Bíblia.

Por conta desse livro e da história que é contada, eu classifico esse filme como não pertencendo ao gênero de ficção, ou drama, ou aventura. É uma história de fé. De crenças, de esperança. Não falo de religião, embora a Bíblia pertença aos adeptos da fé cristã. A meu ver, se trata mais da fé em si, do fato de se acreditar realmente em algo que não se vê, mas que se sabe ser verdade.

Notei, de maneira subliminar, traços característicos do Cristianismo. Eli é um peregrino, um homem solitário, corajoso, destemido, que viaja sozinho pelo mundo de devastação com uma intenção em mente: levar o livro que carrega há 30 anos até um lugar sagrado. Chamo o lugar de sagrado não por que ele é, de fato, mas por ser um local que Eli acredita ser onde Deus o mandou levar o livro. Para o protagonista (e é o que dá a entender toda a história), essa obra é a única coisa capaz de salvar a humanidade. Salvar no sentido de trazer novas esperanças, de ensinar ao povo como recomeçar. É a luz no fim do túnel.

Eli é como o Noé. Por uma promessa de Deus, nada pode acontecer a ele enquanto não cumprir a sua missão. Ele é praticamente invencível. Luta mais do que um samurai, vence mais de 20 homens de uma única vez sem um único arranhão, é baleado e não morre. É um "protegido de Deus".

Por essas e outras, esta é uma história de fé e confiança. Sei que muitos espectadores, ao assistir, discordarão. O filme pode ser considerado religioso, fantasioso, impossível. Mas eu acho que depende da visão: para os que creem que a fé é capaz de tornar qualquer um invencível, é a história ideal.




Acima de tudo, O Livro de Eli é um belo filme, com uma bela fotografia: quase não há cores nas cenas. Tons de cinza fazem o cenário do longa. Uma história de perseverança com tons sombrios, como o mundo retratado. Por sinal, uma bela característica dada pelos irmãos Allan e Albert Hughes, conhecidos por seus filmes violentos e cheios de cenas de ação.

Os diretores gêmeos estrearam no mundo das telonas na década de 90, e o último longa da dupla foi Do Inferno, em 2001. O filme tinha um belo toque misterioso e requintado, trazendo um tema já conhecido pelos amantes do cinema. Talvez por isso não tenha obtido muito sucesso entre o público, mesmo tendo como protagonista o incomparável Johnny Depp.

Aliás, os diretores voltam à cena trazendo na bagagem mais um astro: Denzel Washington. Dispensaria comentários, por mais uma excelente atuação. No entanto, valem a pena algumas palavras. O ator não deixa a desejar – mostra mais uma vez por que é considerado um dos melhores e mais tradicionais atores de Hollywood.

Eli ganha as marcas dos personagens de Denzel, o que lhe cabe como uma luva: sério, corajoso, o típico machão acima de qualquer suspeita. E, claro, com aquele ar de homem rústico espetacular, que não se dá a chorumelas.

Uma grande surpresa aguarda no fim do filme. Este sim é o ápice, a grande sacada dos diretores e o que torna a história muito melhor do que se pode imaginar. O filme, no seu desenrolar, é um, e no final se torna outro. Excelente, mesmo. Paradigmas religiosos à parte, só pelo final já vale a pena assistir.

Um Robin Hood carrancudo e introvertido

Bruna Rossifini
Se você espera ver em Robin Hood o lendário homem que roubada dos ricos para dar ao pobres, dê meia volta e escolha outro filme. O velho e conhecido Robin, vestido de verde, com chapéu de pena e cercado de seu bando, não é o herói retratado no filme de Ridley Scott.

A trama conta a história do arqueiro Robin Hood, integrante do exército do Rei Richard. Após a morte do rei, Robin segue um caminho diferente com seus três amigos. No meio da jornada, o arqueiro se vê envolvido em uma promessa de entregar a coroa de Richard ao seu irmão, John, ao mesmo tempo em que irá seguir seu rumo ao condado de Notthingham para entregar a espada de um dos guerreiros do exército do rei.



O ator Russel Crowe assume de maneira séria o papel do arqueiro e o transforma num sujeito carrancudo. O que mais me deixou chocada foi exatamente a escolha do diretor pelo ator para encarnar o protagonista. Pensem comigo: se o filme conta o início e desde então Robin já tinha aquela idade, quer dizer que ele virou lenda nos pouquíssimos anos seguintes que ainda tinha vigor físico? Não quero nem pensar nas sequências deste filme, com Crowe barrigudo se escondendo pela floresta e realizando as emboscadas para saquear os ricos.

Robin Hood deixa a desejar, apesar dos ares de uma milionária superprodução épica, da produção muitíssimo bem cuidada, da bela fotografia e dos cenários grandiosos. Entretanto, quem viu a publicidade feita pela Universal Pictures, com certeza, esperava algo melhor do que foi mostrado.

Parece inevitável a comparação deste longa-metragem com Gladiador ou Cruzada. Todos são filmes épicos do mesmo diretor, Ridley Scott. Crowe e Scott trabalharam juntos no sucesso de critica e público Gladiador (2000). Já tendo ambientado várias dessas produções utilizando uma cenografia e fotografia do mesmo estilo, em épocas parecidas, todas medievais, com todas suas guerras e lutas, é inevitável que haja certas semelhanças.



O diretor Scott limita-se a repetir o mesmo estilo visual que já havia experimentado em Gladiador e Cruzada. Prova disso é a contratação do diretor de fotografia John Mathieson, que trabalhou nos dois filmes citados.

Isso não quer dizer que o filme seja 100% ruim, mas o principal teaser anunciava um épico ultra violento, com foco no Robin, arqueiro do exército do Rei Ricardo, em volta das Cruzadas. Esse era um dos filmes mais esperados de 2010, mas o produto vendido não foi o mesmo anunciado.